sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Insone

No mar revolto de lençóis mexidos pela ânsia de dormir,
Deixo meu suor misturado ao amor de instantes atrás.
Nada me comove a não ser a dor dos que, mesmo na rua, dormem.
Penso, penso, penso...
Seguindo a linha tortuosa do devaneio, chego a lugar nenhum.
Lembro, esqueço, lembro, esqueço
Initerruptamente noite adentro.
Como um interruptor de idéias sigo oscilando.
E de tanto pensar, esqueço de existir.


à minha vó Cleonice que não cultivava uma relação amistosa com o sono. Dormia pouco, acordava cedo. Seguimos aqui vó. Que os sonhos venham mais doces.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

As Lágrimas de Mariana

As lágrimas de Mariana são qualquer coisa volátil
Que evaporam e chovem em mim.
Teu sal é lançado sobre a terra do meu peito
E me remetem ao vazio da solidão.
A solidão de quem perde o que já não era seu.
O meu andar trôpego conduz-me a lugar nenhum,
Já não presto mais atenção no que meu irmão ouve.
Nem rego as plantas, nem olho pro céu...
Concentro-me em frestas, vãos, edifícios e suas antenas,
em fios de cobre mais velhos que eu.
Não conduzo. Sou tragado pela dor de não ser mais dois.
Viver? Viver é suportar a existência.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Blues do elevador

Ora quem é que não sabe
O que é se sentir sozinho
Mais sozinho que um elevador vazio
Achando a vida tão chata
Achando a vida mais chata
Do que um cantor de soul
Sou eu quem te refresca a memória
Quando te esqueces de regar as plantas
E de dependurar as roupas brancas no varal
Só faz milagres quem crê que faz milagres
Como transformar lágrima em canção
Vejo os pombos no asfalto
Eles sabem voar alto
Mais insistem em catar as migalhas do chão
Sei rir mostrando os dentes
E a língua afiada
Mais cortante que um velho blues
Mas hoje eu só quero chorar
Como um poeta do passado
E fumar o meu cigarro
Na falta de absinto
Eu sinto tanto eu sinto muito eu nada sinto
Como dizia Madalena
Replicando os fariseus
Quem dá aos pobres empresta
A deus

Zeca Baleiro

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Saudade

ai ai vai ver é só você querer
distante imaginar
caberia a quem dizer
amor eu vivo tão sozinho de saudade

Marcelo Camelo
In: sou

Não sei pq a harmonia dessa música me lembra muito a trilha sonora do filme Cinema Paradiso, que ficou por conta do grande Ennio Morricone. Não que se pareçam assim, no sentido estrito da palavra, mas dialogam de alguma forma (pelo menos para mim).

terça-feira, 14 de julho de 2009

Sorrindo incólume aos anos,
Zomba do tempo.
Mistura teu sorriso no meu pranto...
Porque em tudo que não tento, esconde-se toda possibilidade
De subverter o sentimento.
E te encontrar numa outra idade onde o frio não me ache
onde meu sono encontre sempre seu alento.

sábado, 27 de junho de 2009

batismo de sangue

Quando os regatos límpidos do meu ser secarem,
minha alma perderá sua força.
Buscarei, então, pastagens distantes.
Lá onde o ódio não tem teto para repousar...
Nos dias primaveris, colherei flores para o meu jardim da saudade.
Assim, exterminarei a lembrança de um passado sombrio.


Batismo de Sangue, filme dirigido por Helvécio Ratton, inspirado no livro homônimo de Frei Betto. O trecho acima, ao que me parece, é atribuído a Frei Tito, religioso franciscano torturado durante a ditadura militar no Brasil. No filme, a interpretação vigorosa e comovente de Caio Blat nos faz viajar pelo universo angustiado de um ser humano vítima da tortura. Vale à pena assistir.
Dedico este post ao broder Samuel Neves.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

É pior do que se entrevar...

A saudade é uma das vicissitudes do amor
É preciso lembrar pra esquecer
É preciso peito pra guardar a dor


De tudo que foi derramado

amado

amado

amado

no chão que pisastes, com lâminas em teus pés

és?

ainda és...

Quem me faz lembrar
que na vida somos sós.
fim da chama é a cinza.
fim da vida é esperar.
Um eu que queria ser nós.
Um eco que queria saber gritar.